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A Lírica de Camões

  

                                                                                                                   

 Sonetos  

 Um mover de olhos...

A formosura desta fresca serra...

Alegres campos, verdes arvoredos

Amor é fogo que arde

Mudam-se os tempos...

Erros meus, má fortuna...~

Sete anos de pastor...

Aquela triste e leda...

 

Poesia de inspiração tradicional e renascentista

Mudam-se os tempos...


Inspira-se na estética do renascimento italiano, enquanto um soneto mas também pelo tema.
O tema deste soneto é a mudança provocada pela passagem do tempo.
O sujeito poético constata as mudanças do tempo, que se verificam nas pessoas, dos seus valores e ideais. Nada parece escapar à erosão do tempo. Assim, o poeta refere: "do mal ficam as mágoas não lembrança, / e só bem (se algum houve) as saudades..", o que significa que aquilo que prevalece são os momentos mais negativos da vida, pois o tempo levou a esperança.
Ao longo do poema, há sete formas verbais do verbo mudar, intensificadas com vocábulos " novas" e "novidades", pretendendo reforçar o tema, a mudança.
Primeira estrofe: a enumeração e a anáfora permitem uma generalização da mudança - na terceira pessoa.
Segunda estrofe: o sujeito poético recorre agora à primeira pessoa do plural - «vemos», revelando maior proximidade com a reflexão que apresenta. Utiliza a antítese para expressar a ideia de mudança - mal/bem: o primeiro permanece na memória; o segundo talvez nem tenha existido ou, a ter existido, já só deixou «as saudades».
Terceira estrofe: o poeta começa refere-se à mudança cíclica da natureza. Depois do inverno "neve fria" vem a primavera "verde manto" repor a alegria. Contudo, essa mudança nele não acontece. Tudo muda, sim, mas para pior.
Última estrofe: o sujeito lírico conclui que até a própria mudança muda. Para além das figuras já referidas, há a considerar a metáfora -que associada à antÍtese -de primavera verde manto e o pleonasmo neve fria, exprime a mágoa do sujeito lírico, vítima de mudanças sempre negativas.




Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.                            
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranqüilos, tendo                        
Nem o remorso
De ter vivido.
Ricardo Reis, in "Odes" 



“Mestre, são plácidas...”
     1-      Não nos devemos afastar totalmente da vida, as horas perdidas  vivendo nunca são verdadeiramente perdidas.
     2-      O sofrimento pode ser evitado.
     3-      Passar pela vida serenamente, assim não encontraremos obstáculos.
     4-      Reis escolhe o seu caminho. A Natureza é uma afirmação, uma escolha, não uma descoberta.
     5-      A Natureza passa pelo tempo e permanece igual; aceita o tempo e a mudança. Devemos aprender com ela.
6-  Estamos sujeitos à voragem da irreversibilidade do tempo. Resistir ao Fado é fraqueza e traz sofrimento;