CORRENTES/estilos/tendências
Tradicionalista -Medida Velha Renascentista/clássica- Medida Nova
TEMÁTICA/FORMAS FORMAS / TEMÁTICA
Sete anos de
pastor Jacob servia
Labão, pai de
Raquel, serrana bela;
mas não servia
ao pai, servia a ela,
e a ela só por
prémio pretendia.
Os dias, na
esperança de um só dia,
passava,
contentando se com vê la;
porém o pai,
usando de cautela,
em lugar de Raquel
lhe dava Lia.
Vendo o triste
pastor que com enganos
lhe fora assi
negada a sua pastora,
como se a não
tivera merecida;
começa de
servir outros sete anos,
dizendo: —Mais
servira, se não fora para
tão longo amor
tão curta a vida.
Poema de caráter narrativo.
A partir de uma passagem bíblica conta
a história de Jacob, metonímia do poeta (?). Jacob enamorou-se de Raquel, filha
de Labão. Mas a filha mais nova não poderia casar antes da filha mais velha. Labão fez um
trato com o pretendente a genro: 7 anos de servidão para se casar com Raquel. Contudo,
após a jornada, o patriarca, entrega-lhe Lia, a primogénita. Ele trabalha,
então, mais sete anos para conseguir concretizar o seu desejo .
Para destacar o amor de Jacob, o
poeta refere que ele estaria disposto a trabalhar tanto tempo quanto o exigido
ao ponto de uma vida não ser suficiente para tão profundo amor.
Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;
Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual:
Sabei que, sem licença do meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.
E, pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas
Nem águas que correndo alegres vêm.
Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.
1. O Tema - tristeza saudosa de um amor passado, que faz com que a beleza e consequente a alegria da paisagem desapareçam.
2. Estrutura
2.1. Externa Soneto em verso decassilábico, com rima interpolada e emparelhada nas 3 quadras e interpolada nos tercetos, segundo o esquema rimático ABBA ABBA CDE CDE.
2.2. Estrutura Interna O soneto estrutura-se em três momentos:
2.2.1. As quadras, apresentam uma paisagem à qual o poeta se dirige (apóstrofe);
- nos versos 7 e 8 em que um imperativo (“sabei") como que interrompe o pendor descritivo inicial e revela a existência de uma situação de tristeza ("meu mal");
2.2.2. O 1º terceto- 2º momento- justifica "pois me já não vedes como vistes" confirma o 2º momento, revelando uma oposição passado/presente notória nas formas verbais (vedes ≠ vistes);
2.2.3. Finalmente, no último terceto, exprime-se toda a tristeza saudosa do sujeito, que projeta "semear" as suas "lembranças tristes" naquela paisagem e dela vir a colher as saudades que desveladamente há de regar com lágrimas.
A natureza no futuro: “E nascerão saudades do meu bem” Rutura provocada pela tristeza (“mal”) do Eu: “já não podeis fazer meus olhos ledos” Confirmação (“E pois me já não vedes como vistes”)
► Adjetivação abundante e predominantemente anteposta;
► Sons fechados e nasais (dor)em alternância com sons abertos;
► Apóstrofe e animação da natureza;
Unidade forma/conteúdo
- Síntese Relação natureza/Eu: Ao equilíbrio natural (clássico) da paisagem a corresponde a suavidade quase conformada do Eu. A relação entre os dois elementos Natureza/Eu não é de oposição, mas de paralelo, de reflexo, de espelho (como o das águas). Há, no entanto, algum contraste inicial expresso na oposição campos, arvoredos/montes, penedos.
A interação entre o Eu e a Natureza é evidenciada pela interpelação direta (“vós”) por parte do poeta.
A personificação vai mais longe, passando o Eu do ver e do interpelar ao atuar simbolicamente sobre a Natureza, especialmente no último terceto (“semearei…”, “Regando-vos…”. E a Natureza, de certo modo, responde (“E nascerão…”). Verifica-se ainda a presença dos elementos fundamentais: água, terra e luz (cor), em equilíbrio natural. A
correspondência Eu/Natureza/Eu é total no terceto final, através da inclusão de um ciclo da terra/Vida num encadeado natural de causa/ consequência: semear, regar, nascer.
A formosura desta fresca serra...
1.Soneto inspirado na saudade, «porventura o mais doce, expressivo e delicado termo da nossa língua» — no dizer de Almeida Garrett. As belezas daquela «estranha terra» extasiam o sujeito poético. No entanto, sem a presença da amada, ele sente a maior «tristeza» no meio das maiores «alegrias». Com efeito, estas últimas apenas servirão para o magoar, já que a (re)visão da Natureza fascinante apenas despertará nele recordações da amada, mas, na sua ausência, tudo o que é belo na Natureza o «enoja» e o «aborrece».
2. Há dois momentos que estruturam o poema. Na primeira, correspondente às quadras, faz-se uma descrição da paisagem, em frases nominais e de forma objetiva, fluente e espontânea. Na segunda, formada pelos tercetos, são exteriorizados estados de alma subjetivos (magoar / enojar / aborrecer / passar tristezas).
3. Destaque para os grupos preposicionais do último verso do segundo terceto («nas mores alegrias, mor tristeza...»), em que o primeiro está ligado, quanto ao sentido, às duas quadras e o segundo («mor tristeza») ao primeiro terceto.
4. Visão estática da Natureza (exceção feita ao «manso caminhar» dos ribeiros, ao «esconder do sol», ao «recolher dos gados» e à «branda guerra».
5. A visão intelectualizada da Natureza, conforme o modelo clássico, em que é ressaltada, em primeiro lugar, a caraterística do elemento enunciado, através de um nome ou infinitivo substantivado (a fermosura / a sombra / o caminhar / o som / o esconder / o recolher / a guerra), seguidos da preposição de e quase sempre acompanhados do respetivo modificador.
6. O pronome indefinido "tudo" no primeiro verso do primeiro terceto com que, após a visão analítica da paisagem, se inicia a síntese: a raridade e a variedade da Natureza são os seus dois atributos principais da Natureza que o magoam, caso não veja a amada.
7. Intensificação semântica - o prolongamento da dor e seu aprofundamento evidenciados no último terceto com o recurso à anáfora («sem ti... sem ti»); a antítese («alegrias... tristezas»); o advérbio de modo («perpetuamente»); e do complexo verbal aspetual («estou passando»), a sugerirem o estado permanente de tristeza do eu lírico perante a ausência da mulher amada.
8. Esquema rimático: ABBA / ABBA / CDE / DEC, com rimas interpolada e emparelhada, nas quadras; interpolada e cruzada, nos tercetos; consoante e feminina ou grave, em todo o poema.